AIDS: 32 anos de epidemia
AIDS: 32 anos de epidemia

Pesquisamos os números da doença no Brasil e no mundo e conversamos com Lucinha Araújo, mãe de Cazuza

De acordo com dados oficiais, os primeiros casos de Aids datam de 1977 e 1978, nos Estados Unidos, Haiti e África Central, descobertos e definidos como uma nova síndrome apenas em 1982 (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – Aids/Sida). Três décadas depois, é possível observar o rastro de óbitos deixado em decorrência da síndrome: 25 milhões de homens, mulheres e crianças, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Mais de 15 milhões de jovens e crianças ficaram órfãos por causa da Aids, principalmente na África subsaariana. Hoje, a estimativa é de que 34 milhões de pessoas tenham o vírus HIV (muitas já doentes), e diariamente, surgem cerca de 7.400 novas infecções, quase a metade em jovens entre 15 e 24 anos. Em 2011, segundo a OMS, 1,7 milhão morreram em decorrência da doença.

Embora as pesquisas ainda não tenham encontrado a vacina de cura da Aids, os avanços na composição de medicamentos permitem ao soropositivo mais qualidade de vida. Atualmente, 10 milhões de pessoas no mundo tomam os antirretrovirais, essenciais no controle da epidemia, e o acesso aos tratamentos é meta das organizações internacionais de saúde.

Em julho deste ano, a OMS divulgou novas diretrizes para isso, pedindo aos governos que incentivem o tratamento em adultos, crianças, grávidas e lactentes. Com a aplicação de medidas eficazes, 9,3 milhões de pessoas a mais terão direito aos medicamentos, evitando 3,5 milhões de novas infecções e 3 milhões de mortes até 2025. Concretizar a proposta depende de investimentos, nos países em desenvolvimento, na ordem de US$ 25 bilhões.

O Brasil na luta contra a aids

O primeiro caso no país ocorreu em 1980, em São Paulo, também só classifi cado como Síndrome da Imunodeficiência Adquirida dois anos depois. Até 2012, a soma de casos da doença manifestada no Brasil era de 656.700. A taxa de incidência era de 20,2 casos por 100 mil habitantes, principalmente em homens e mulheres entre 25 e 49 anos. Por ano, a média de novos casos é de 36 mil, com 11,5 mil mortes.

Segundo a Unaids (órgão da Organização das Nações Unidas para Aids) existem 490 mil brasileiros soropositivos. Já o Ministério da Saúde prevê um volume maior, de aproximadamente 530 mil infectados, e aponta que um quarto dos portadores do HIV no Brasil, cerca de 135 mil pessoas, desconhece que estão com o vírus.

O Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde considera que não só no Brasil, mas em muitos outros países, questões culturais são contrárias às práticas de prevenção da doença, como o uso de camisinha e a distribuição de seringas a usuários de drogas.

O médico Paulo Roberto Teixeira, assessor da Diretoria do Programa de Aids no estado de São Paulo, lembra que os programas de combate e prevenção no país são referências no mundo, mas que também precisam avançar no sentido de transpor barreiras. Ele afirma que a taxa de prevalência de HIV na população brasileira, de 0,6 da população adulta, pode ser considerada baixa. No entanto, nos grupos avaliados como mais vulneráveis, como de usuários de drogas e pessoas envolvidas com prostituição, o cenário é agravado.

O atual grau de conhecimento e as novas tecnologias e estratégias de intervenção no enfrentamento da epidemia nos permitem aspirar a possibilidade de uma geração livre de Aids, pondera Érico Arruda, presidente eleito da Sociedade Brasileira de Infectologia (2014-2015), que também cobra aperfeiçoamentos na política brasileira de combate ao HIV.

"Acreditamos que a terapia antirretroviral mais precocemente instituída, especialmente se baseada em medicamentos coformulados, permite melhor adesão e garante que a expectativa de vida de pessoas com HIV seja semelhante à do soronegativo. Ademais, se transforma em importante estratégia de prevenção (tratamento como prevenção), combinada com outras mais antigas e muito efetivas, notadamente o uso de preservativo. Contudo, não podemos esquecer de comentar a necessidade de enfrentar as diversas lacunas e insuficiências na política pública nacional, que permanecem, como testagem e abordagem de populações mais vulneráveis, apenas como um exemplo de tantos outros problemas na enorme complexidade de distorções do Sistema Único de Saúde”.

São Paulo avança nos programas de prevenção

O estado concentra mais de 30% dos casos de Aids do país e a capital também contabiliza um terço dos soropositivos paulistas. Há uma estimativa de que existam pelo menos 130 mil infectados no estado e 90 mil pessoas fazem tratamento. De acordo com a Secretaria estadual de Saúde, são mais de 10 mil profissionais envolvidos direta ou indiretamente em atividades de vigilância, prevenção, assistência e apoio aos doentes. O modelo ajudou na queda de incidência da doença: 33,7% entre 2000 e 2010.

Há 30 anos, os atendimentos ocorriam, geralmente, no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e Instituto de Saúde, com o apoio de hospitais universitários, como da USP, UNESP/Botucatu, Unifesp e Unicamp. Hoje, o estado oferece 200 serviços de assistência especializada em DST/ Aids, 130 centros de testagem e aconselhamento em 95 municípios, 31 hospitais-dia, 26 serviços de assistência domiciliar terapêutica e 580 leitos para portadores de HIV/Aids.

O site do governo paulista diz que "a distribuição de medicamentos é feita de maneira descentralizada por 43 polos, com mais de 159 unidades. Mais de 80 mil pacientes no estado de São Paulo recebem medicamento antirretroviral e outros para as doenças oportunistas. Os ARV são fornecidos pelo Ministério da Saúde, enquanto os medicamentos para doenças oportunistas são de responsabilidade do estado”.

"Ainda assim, para pensar na eliminação da doença no país, precisamos de mais investimentos nas estruturas públicas de Saúde. Há uma ramificação para tratar de fato a Aids. Deve haver redes especializadas funcionando bem, como de atenção ao parto e à tuberculose, só para citar dois exemplos”, pontua o assessor do programa de Aids de SP.

Tanto o Ministério da Saúde quanto a Secretaria estadual de Saúde de São Paulo programam ações para a semana do dia 1º de dezembro, Dia Mundial de Combate à Aids. Mais informações www.saude.gov.br e www.agenciaaids.com.br.

Dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão...

"Eu tenho um compromisso com a dor.” A fala é de Lucinha Araújo, mãe de Agenor Miranda Araújo Neto, o Cazuza, morto em 1990, aos 32 anos, vítima da Aids, quando a doença ainda assombrava o mundo.

Logo que descobriu, Cazuza assumiu ser soropositivo, em um ato de coragem, evitando mascarar um problema que atingia tantas outras pessoas, e tornando-se um dos principais símbolos de luta contra a doença no Brasil. "Ele foi de uma bravura comovente. Numa época em que a Aids era um monstro, ele assumiu a doença, enfrentou tudo com imensa integridade. Dessa geração, ninguém foi como ele. Aliás, o país está carente de ídolos”, disse Lucinha em entrevista à Revista da APM.

No mesmo ano em que seu filho morreu, ela fundou a Sociedade Viva Cazuza, direcionada ao atendimento de crianças que perderam seus pais também vítimas da doença. Atualmente, são 24 funcionários, responsáveis pela educação e bem-estar de 23 crianças, que possuem uma rotina normal de ir à escola, fazer tarefa com a pedagoga, brincar, assistir TV, ter horários para as atividades do dia. "Se eu não tivesse me dedicado à ONG, teria morrido com meu filho”, salientou a mãe do cantor.

A ONG é mantida com o dinheiro dos direitos autorais de Cazuza, ajuda de três amigos da família e venda dos três livros escritos por Lucinha – Só as mães são felizes (1997), que originou o filme de Sandra Werneck, Preciso dizer que te amo (2001) e O tempo não para (2013). A prefeitura do Rio de Janeiro cede duas casas, uma administrativa, onde funciona a sede, e a outra, o lar das crianças.

A Sociedade Viva Cazuza já passou por períodos críticos, já que a internet fez despencar o volume de recursos para os custos mensais. "Hoje, tudo se baixa de sites de música. O que recebemos de direitos autorais não cobre nem a metade dos gastos”, conta. Esse ano, porém, todos os envolvidos no projeto respiram mais aliviados. Um dos motivos é o espetáculo Cazuza – Pro dia nascer feliz, o musical, que apresenta muito da obra do cantor e compositor.

Casada há 57 anos com o produtor musical João Araújo, Lucinha acha importante incentivar o acesso aos medicamentos fornecidos pelo Ministério da Saúde e à informação. "Sinto que as pessoas relaxaram o cuidado com a Aids. É como se pensassem ‘ah, se contrair o vírus tomo o coquetel’. Esse comportamento da juventude é perigoso”, lamenta.

Fonte: APM